domingo, 26 de agosto de 2012

MITOS E LENDAS

1 TÍTULO DO PROJETO
Lendas de Curitiba.
2 CICLO OU SÉRIE ESCOLHIDA
Primeira série do ensino fundamental.
3 BLOCOS TEMÁTICOS PROPOSTOS
GEOGRAFIA HISTÓRIA ENSINO RELIGIOSO
01.Tudo é natureza
02.Conservando o ambiente
03.Transformando a natureza:
diferentes paisagens
03.Comunidade indígena 03.Idéia do Transcendente
4 AUTOR
Nome: Keila Cristina Nadalin
E-mail:
keila.nadalin@bol.com.br
5 FUNDAMENTAÇÃO PEDAGÓGICA
Inicialmente, devemos refletir sobre quais as características da criança que se
encontra na idade escolar (aproximadamente dos 07 aos 10 anos). Aos sete anos, Bello
(2004, p.01) explica que neste período já existe um desejo de explicação dos
fenômenos. É a “
idade dos porquês”, pois o indivíduo pergunta o tempo todo.
Distingue a fantasia do real, podendo dramatizar a fantasia sem que acredite nela. Seu
pensamento não está apenas no seu próprio ponto de vista. Já é capaz de organizar
coleções e conjuntos, incluindo conjuntos menores em conjuntos maiores (rosas no
conjunto de flores, por exemplo). Quanto à linguagem mantém uma conversação
relativamente longa e já é capaz de adaptar sua resposta às palavras do companheiro.
Aos oito anos, é basicamente o período em que o indivíduo consolida as conservações
de número, substância, volume e peso. Já é capaz de ordenar elementos por seu
tamanho (grandeza), incluindo conjuntos, organizando então o mundo de forma lógica
ou operatória. Sua organização social é a de bando, podendo participar de grupos
maiores, chefiando e admitindo a chefia. Já podem compreender regras, sendo fiéis a
ela, e estabelecer compromissos. O interessante é que a criança é capaz de discutir
diversos pontos de vista, chegando em uma conclusão comum.
Segundo Junqueira (2004), a criança de 07 a 11 anos apresenta crescimento
rápido, controlando melhor o corpo. Aumenta sua segurança, controle e equilíbrio para
desafios como andar de bicicleta, subir em árvores, pular corda , nadar e praticar jogos
e esportes. Ela já trabalha com o ritmo e aprimora sua capacidade motora global.
Considerar o ponto de vista do outro, admitir pontos de vista divergentes, elaborar
operações lógico-matemáticas, maior coordenação e descentralização a reversibilidade
operatória e capacidade crescente de generalizar são características do período.
Ocorre também que a criança atinge a chamada “moralidade da reciprocidade”,
percebendo as regras como passíveis de discussão e redefinição – construção da
autonomia.
A criança encontra-se no estágio mítico-literal, assumindo para si as histórias,
crenças e observâncias que simbolizam pertença à sua comunidade. As crenças são
apropriadas com uma interpretação literal, assim como as regras e atitudes morais. Os
símbolos são entendidos como unidimensionais e literais em seu sentido.
A LDB 9394/96 afirma que a educação tem por fim o pleno desenvolvimento do
educando, seu preparo para o exercício da cidadania, além de fornecer meios para que
o educando progrida no trabalho e em estudos posteriores. Nesse sentido, os
parâmetros curriculares nacionais (1998) estabelecem que o ensino de geografia para
as primeiras séries do ensino fundamental tem os seguintes objetivos:
01- Conhecer a organização do espaço geográfico e o funcionamento da natureza
em suas múltiplas relações, de modo a compreender o papel das sociedades
em sua construção e na produção do território, da paisagem e do lugar;
02- Identificar e avaliar ação dos homens em sociedade e suas conseqüências em
diferentes espaços e tempos, de modo a construir referenciais que possibilitem
uma participação propositiva e reativa nas questões socioambientais locais;
03- Compreender a espacialidade e temporalidade dos fenômenos geográficos
estudados em suas dinâmicas interações;
04- Compreender que as melhorias nas condições de vida, os direitos políticos, os
avanços técnicos e tecnológicos e as transformações socioculturais são
conquistas decorrentes de conflitos e acordos, que ainda não são usufruídas por
todos os seres humanos e, dentro de suas possibilidades, emprenhar-se em
democratizá-las;
05- Conhecer e saber utilizar instrumentos de pesquisa da geografia para
compreender o espaço, a paisagem, o território e o lugar, seus processos de
construção, identificando suas relações, problemas e contradições;
06- Fazer leituras de imagens, dados e de documentos de diferentes fontes de
informação, de modo e interpretar, analisar e relacionar informações sobre o
espaço geográfico e as diferentes paisagens;
07- Saber utilizar a linguagem cartográfica para obter informações e representar a
espacialidade dos fenômenos geográficos;
08- Valorizar o patrimônio sociocultural e respeitar a sociodiversidade,
reconhecendo-a como direito dos povos e indivíduos e um elemento de
fortalecimento da democracia.
No ensino de história o aluno deve:
01- Identificar o próprio grupo;
02- Organizar um repertório histórico-cultural;
03- Conhecer e respeitar os diferentes modos de vida dos grupos sociais;
04- Questionar a nossa realidade;
05- Utilizar métodos de pesquisa;
06- Valorizar o patrimônio sociocultural.
Os PCN’S para o ensino religioso entendem que essa disciplina tem por objetivo
valorizar o pluralismo e a diversidade cultural presente na sociedade brasileira,
facilitando a compreensão das formas que exprimem o Transcendente na superação da
finitude humana e que determinam o processo histórico da humanidade. Isso ocorre a
partir do conhecimento dos elementos básicos que compõem o fenômeno religioso, da
formulação de questionamentos e análise do papel das tradições religiosas na
estruturação de diferentes culturas, facilitando a compreensão das verdades de fé das
tradições religiosas. O ensino religioso deve possibilitar esclarecimentos sobre o direito
à diferença na construção de estruturas religiosas que têm na liberdade seu valor
inalienável.
O estudo das Lendas de Curitiba é interessante porque permite que o aluno
das séries iniciais do ensino fundamental estabeleça uma relação forte com a história
de sua comunidade e o que a fundamenta. Isso contribui para a cidadania, pois o aluno
se torna consciente de seus direitos e deveres, aprendendo a respeitar sua comunidade
e os povos que a formaram. Ele entenderá nossa comunidade. Esse conteúdo também
tem um compromisso político com a formação dessa criança com relação aos estudos
posteriores. Ao conhecer a complexidade de seu povo, a criança pode tomar como
base essas diretrizes para estar sensível à cultura de outros povos (gregos, romanos,
europeus, asiáticos...) respeitando-os.
6 OBJETIVOS
- Compreender sua identidade religiosa numa construção recíproca com o outro e na
percepção da idéia do Transcendente, expressas pelos símbolos religiosos;
- Conhecer e respeitar os diferentes modos de vida dos grupos sociais, principalmente
da comunidade indígena;
- Valorizar o patrimônio sociocultural;
- Conhecer e comparar a presença da natureza na paisagem local, com as
manifestações presentes em outras paisagens;
- Reconhecer semelhanças e diferenças nos modos de vida dos diferentes grupos
sócias;
- Reconhecer a importância de uma atitude responsável com o meio em que vivem,
evitando o desperdício e percebendo os cuidados que se deve ter na preservação e
manutenção da natureza.
7 RECURSOS DIDÁTICOS
-
Folhas de papel diversas e tecidos (montagem do cenário e figurino);
-
Livros de história e geografia;
-
Aparelho de CD;
-
Internet.
8 DESENVOLVIMENTO DAS ATIVIDADES
Essas atividades serão feitas em mais ou menos quatro aulas. O professor
deverá fazer uma explicação para os alunos sobre o que são lendas e quais são as
lendas de Curitiba (Pinheiro-do-Paraná, Gralha-Azul, Vila Velha, Curupira, Lobisomem,
Mula-sem-cabeça e Iara). É importante que o professor trabalhe os conteúdos sobre as
comunidades indígenas, destacando a importância de seus ritos. A história de nosso
estado não deve ser desconsiderada, pois os alunos devem ser levados a compreender
que as lendas (mitos) estão relacionadas com questões de linguagem e também da
vida social do homem, uma vez que a narração das lendas é própria de uma
comunidade e de uma tradição comum. Ao final, os alunos deverão produzir um texto
sobre o que compreenderam. Essa atividade exige que a turma já consiga escrever, por
isso deve ser realizada mais ou menos no final do ano.
Logo após, os alunos serão levados a montar uma peça teatral que representa
as sete lendas. Esse teatro será produzido por toda a classe; deverá apresentar
enredo, personagens, figurino, diretores, música e cenário, de forma que os alunos
procurem captar os elementos mais significativos das histórias. Isso exigirá pesquisas
em livros de história e geografia e a Internet.
O professor deve ser um orientador. Na história da Vila Velha, por exemplo,
devem ser valorizadas a transformação da natureza e as diferentes paisagens. Com a
referência a Tupã, pode-se estudar a idéia do Transcendente (concepção de deus) e a
simbologia religiosa dos indígenas. As lendas do Curupira e da Iara nos remetem às
comunidades indígenas, seus costumes e postura em relação à natureza. A lenda da
Gralha-Azul é um convite ao respeito à natureza. Já as lendas do lobisomem e da mulasem-
cabeça nos remetem à riqueza do ideário popular.
9 AVALIAÇÃO
Será processual e contínua. Na área de geografia, o professor deve procurar
observar através dos textos produzidos e do teatro se o aluno é capaz de reconhecer
algumas manifestações da relação entre sociedade e natureza presentes na sua vida
cotidiana e na paisagem local (Vila Velha, Curitiba).
Com relação à história, a aluno deve ser capaz de respeitar a cultura indígena,
compreendendo seus costumes e manifestações a partir das lendas de Curitiba. O
professor deve identificar se o aluno tem uma atitude de reverência para como
transcendente no outro, de respeito à alteridade e ao direito do outro de ser diferente, o
desenvolvimento da capacidade de tolerância, assumindo sua identidade pessoal com
segurança e liberdade.
10 APROFUNDAMENTO DO CONTEÚDO
Segundo o Jornal Curitibinha e o Grande Livro do Folclore, um lendário amplo e
diversificado é o da região Sul, uma região que, embora pequena, conviveu com uma
grande variedade de elementos étnicos, de culturas e sociologias diferentes em sua
formação, ajuntando, portanto, uma variação muito grande de vivências e informações.
Histórias de animais e contos ligados aos índios se juntam a outros europeus e a
alguns de origem negra, criando um conjunto no qual há espaço para tudo. Desde uma
história da araponga e da onça, em que os dois animais fazem uma aposta para saber
quem grita mais alto, até a do grande feiticeiro que, transformado em serpente, faz
estragos na costa de litoral.
No meio, a lenda do
sete-cuias, uma espécie de caboclo d’água do mar que
costuma aparecer para os pescadores, e, misteriosamente, se não for atendido em
suas solicitações, faz com que as canoas afundem.
Através do lendário, dá-se explicação para quase tudo. Dizem, por exemplo, que
a cigarra é assim como é, porque não quis atender sua mãe. Muito doente, a mãe lhe
pediu que lhe fizesse companhia. A cigarra, porém, era muito foliona e não foi,
respondendo que tinha baile para cantar. A mãe, então, usou uma frase: “Deus permita
que se arrebente de tanto cantar”. É por isso que a cigarra canta, canta, até morrer.
Do
Pinheiro-do-Paraná, também surgiram várias lendas e crendices. Quando os
galhos do pinheiro rangem ou choram à noite, embalados pelo vento, é sinal de que
alguém vai morrer, e a árvore já está oferecendo madeira para o caixão.
Se o pinheiro canta embalado pelo vento da madrugada, há noivado por perto.
Se o pinheiro solta muitas folhas durante a noite, pode ter certeza, vai haver seca, mas
se as pinhas caem sem ninguém tocar nelas, é sinal de paz e felicidade. Muita gente,
ao passar debaixo de um pinheiro, observa bem: se caem folhas verdes é porque há
pessoas que gostam, às ocultas, da gente; se forem secas, é porque há pessoas que
não gostam de nós.
Há também uma lenda sobre a importância da
Gralha Azul na permanência dos
pinheirais. Dizem que o pássaro, ao acordar numa manhã, ouviu logo as machadadas
dos trabalhadores usados na derrubada e descascamento dos pinheiros – derrubando
uma árvore onde ela sempre costumava pousar. Não querendo continuar ouvindo o
barulho que matava a sua árvore, a gralha voou, voou e foi parar perto do céu. E foi
então que ouviu a voz de Deus ordenando-lhe que voltasse para os pinheirais. Daquele
momento em diante, ela passaria a ser azul e o ajudaria na tarefa de reflorestar a terra
com as árvores que estavam sendo destruídas pelo homem.
A gralha voltou correndo para terra, percebendo então que não era mais preta.
Tinha ficado toda azul, com exceção da cabeça, ainda preta, como se fosse para ela se
lembrar de sua origem na família dos corvos de missão.
Deve ter sido Deus, acredita o povo, que ensinou a gralha a usar uma técnica
diferente para comer o pinhão. Ela o bate contra um galho até a casca se romper.
Então, come a metade da polpa, “plantando” a outra metade no chão, numa cova
pequena, que ela cobre de terras e de gravetos. Daquela metade nasce outro pinheiro.
É por isso que a gralha é considerada um símbolo ecológico, e vários projetos
em defesa do meio ambiente já surgiram com o seu nome. Além disso, é o símbolo do
Paraná.
Vila Velha
Lá há 24 enormes figuras esculpidas pela própria natureza, com formatos que
lembram animais como o leão, o camelo, o rinoceronte, uma tartaruga, bem como um
castelo, um farol, uma garrafa e outros objetos. Dentre elas destacam-se três que
lembram um índio, uma noiva e uma taça. Diz uma velha lenda indígena que, há muito
tempo, vivia naquela região a tribo dos Apiadas. Não havia ainda as rochas, e entre os
índios existia um grupo de guerreiros cuja missão era defender os tesouros de Tupã,
escondidos sobre a terra. As regras eram severas para esse grupo e incluíam não ter
contato sexual com mulher, porque os segredos dos tesouros poderiam ser revelados.
Um desses guerreiros, numa época distante, era Dhuí, educado desde pequeno para
ser guardião.
Acontece que uma tribo rival queria descobrir tais segredos e escolheu a mais
bela de suas jovens, Aracê, para conquistar Dhuí e conseguir as informações. Dito e
feito. Ele se apaixonou pela jovem, o mesmo acontecendo com ela, e numa noite,
depois de tomarem uma taça de vinho de palmeira, deitaram-se juntos e Dhuí então
acabou revelando os segredos de Tupã.
Este não gostou e, como castigo, sacudiu a terra com um forte terremoto,
transformando a região numa verdadeira selva de pedra. Dhuí e Aracê também foram
petrificados e, juntos com a taça em que tomaram o vinho, servem de lembrança de
como não se deve contrariar as ordens de Tupã.
Curupira
O Curupira é um indiozinho ecologista de carteirinha. Ele defende a natureza
contra o seu maior predador: o homem.
Para despistar os caçadores e lenhadores, o indiozinho se transforma em um
animal, deixando os malfeitores perdidos nos labirintos da floresta. Quem tenta
persegui-lo, não tem a menor chance. O danadinho, que tem os pés virados para trás e
os calcanhares para frente, engana mesmo. A gente nunca sabe se ele está indo ou
vindo.
Lobisomem
Diz a lenda que na família onde houver sete irmãos, todos machos, um deles vira
lobisomem em noite de lua cheia. Na noite de quinta para sexta-feira, o corpo do
homem se cobre de pêlos, suas orelhas e dentes crescem e as unhas se transformam
em garras, ganhando a forma de um grande lobo.
Após esta transformação, o lobisomem sai à procura de sangue, atacando
pessoas e animais. Mas ele precisa voltar para casa antes do dia clarear. Dizem que,
para saber quem é o lobisomem que tenta nos atacar, devemos falar para ele a
seguinte frase: ”Amanhã passa lá em casa para buscar sal.” No dia seguinte, a pessoa
que se transforma em lobisomem vai buscar sal na sua casa. Claro, isso tudo se você
tiver tempo e coragem para levar um papinho com ele.
Mula-sem-cabeça
Mulher que namora padre, vira mula-sem-cabeça na certa. Contam que, como
castigo, a mulher se transforma em mula na noite de quinta para sexta-feira. Apesar de
não ter cabeça, ela solta chispas de fogo pelas narinas e espuma pela boca,
relinchando furiosamente.
Quem quiser desfazer o encanto, deve ferir a mula até sangrá-la e então volta à
forma humana.
Iara
A Iara é uma linda sereia, de olhos verdes e cabelos loiros, que cuida dos rios e
dos lagos. Por se sentir muito só, nos rios onde vive, ela sempre está em busca de
companhia.
Com seu belo canto e beleza sem igual, ela enfeitiça todos aqueles que se
aproximam das margens dos rios, levando-os para o fundo das águas. Por isso, ao cair
da tarde, os índios costumam se afastar de rios e lagos, temendo encontrar a Iara.
Aprofundando um pouco a questão sobre o que é lenda, podemos concluir que
ela é uma narrativa fantástica ou mítica, muitas vezes originada de fatos históricos que
as tradições oral e escrita alteram com o tempo (ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA, 1998,
vol. 10, p. 85).
A história de Prometeu, acorrentado pelos deuses como castigo por haver-lhes
arrebatado o fogo para entregá-lo aos homens e a especulação sobre a existência do
“bom selvagem”, criada para explicar a suposta evolução cultural da humanidade,
apesar de tão claramente distintas e distantes, são quase unanimemente consideradas
de caráter mítico. Isso indica que o mito – apesar de ser um conceito não definido de
modo preciso e unânime – constitui uma realidade antropológica fundamental, pois ele
não só representa uma explicação sobre as origens do homem e do mundo em que
vive, como traduz por símbolos ricos de significados o modo como um povo ou
civilização entende e interpreta a existência.
Mito é uma narrativa tradicional de conteúdo religioso, que procura explicar os
principais acontecimentos da vida por meio do sobrenatural. O conjunto de narrativas
desse tipo e o estudo das concepções mitológicas encaradas como um dos elementos
integrantes da vida social são denominados mitologia.
Natureza do mito
Características do mito
A narração mitológica envolve basicamente acontecimentos supostos, relativos a
épocas primordiais, ocorridos entes do surgimento dos homens (história dos deuses) ou
com os “primeiros” homens (história ancestral). O verdadeiro objeto do mito, contudo,
não são os deuses nem os ancestrais, mas a representação de um conjunto de
ocorrências fabulosas com que se procura dar sentido ao mundo. O mito aparece e
funciona como meditação simbólica entre o sagrado e o profano, condição necessária à
ordem do mundo e às relações entre os seres. Sob sua forma principal, o mito é
cosmogônico ou escatológico, tendo o homem como ponto de interseção entre o estado
primordial da realidade e sua transformação última, dentro do ciclo permanente
nascimento-morte, origem e fim do mundo.
As semelhanças com a religião mostram que o mito se refere – ao menos em
seus níveis mais profundos – a temas de interesse que transcendem a experiência
imediata, o senso comum e a razão: Deus, a origem, o bem e o mal, o comportamento
ético e a escatologia (destino último do mundo e da humanidade). Crê-se no mito, sem
necessidade ou possibilidade de demonstração. Rejeitando ou questionando, o mito se
converte em fábula ou ficção.
Mito e religião
Alguns especialistas, como Mircea Eliade, estudioso de história comparada das
religiões, atribuem importância especial ao contexto religioso do mito. Com efeito, são
muito freqüentes os mitos que versam sobre a origem dos deuses e do mundo
(chamados, respectivamente, mitos teogônicos e cosmogônicos), dos homens, de
determinados ritos religiosos, de preceitos morais, tabus, pecados e redenção. Em
certas religiões, os mitos formam um corpo doutrinal e estão estreitamente relacionados
com os rituais religiosos – o que levou alguns autores a considerar que a origem e a
função dos mitos é explicar os rituais religiosos. Mas tal hipótese não foi universalmente
aceita, por não esclarecer a formação dos rituais e porque existem mitos que não
correspondem a um ritual.
Nas religiões monoteístas, as mitologias, sobretudo as teogonias, são
geralmente repudiadas como exemplos de ateísmo ou politeísmo, pois representariam
uma desvirtuação do Deus único e transcendente, à medida que o relacionam a
manifestações ou representações de outras criaturas. Entretanto, essas mesmas
religiões também recorrem a descrições fantásticas, de caráter simbólico, para explicar
a origem do mundo e do pecado, o fim do mundo e a vida ultraterrena, e não deixam de
atribuir a Deus reações e sentimentos humanos.
O mito, portanto, é uma linguagem apropriada para a religião. Isso não significa
que a religião, tampouco o mito, conte uma história falsa, mas que ambos traduzem
numa linguagem plástica (isto é, em descrições e narrações) uma realidade que
transcende o senso comum e a racionalidade humana e que, portanto, não cabe aos
meros conceitos analíticos. Não importa, do ponto de vista do estudo da mitologia e da
religião, que Prometeu não tenha sido realmente acorrentado a um rochedo com um
abutre a comer-lhe as entranhas, nem que Deus não tenha criado o ser humano a partir
do barro. Religião e mito diferem, não quanto à verdade ou falsidade daquilo que
narram, mas quanto ao tipo de mensagem que transmitem.
A mensagem religiosa geralmente exige determinado comportamento perante
Deus, o sagrado e os homens, e é, muitas vezes, formulada de forma compatível com
conceitos racionais e em doutrinas sistematizadas. O mito abrange maior amplitude de
mensagens, desde atitudes antropológicas muito imprecisas, até conteúdos religiosos,
pré-científicos, tribais, folclóricos ou simplesmente anedóticos, que são aceitos e
formulados de modo menos consciente e deliberado, mais espontâneo, sem
considerações críticas.
Mito e sociedade
Como forma de comunicação humana, o mito está obviamente relacionado com
questões de linguagem e também da vida social do homem, uma vez que a narração
dos mitos é própria de uma comunidade e de uma tradição comum. Não se conseguiu
definir, no entanto, a natureza precisa dessas relações. Alguns lingüistas admitem
explicitamente a necessidade de uma ciência mais abrangente, como por exemplo uma
nova ciência geral da semiologia, cuja tarefa seria estudar todos os signos essenciais à
vida social, e uma nova psicologia, que caracterizaria inicialmente vários sistemas do
conhecimento e da crença humanos. O estudo da sociedade e da linguagem pode
começar apenas com os elementos fornecidos pela fala e pelas relações sociais
humanas, mas em cada caso esse estudo se confronta com uma coerência de
tradições que não está diretamente aberta à pesquisa. Essa é a área em que atua a
mitologia.
Algumas concepções mitológicas podem exemplificar a complexidade e a
variedade das relações entre mito e sociedade. A tribo lugbara (do noroeste de Uganda
e do Congo) utiliza um sistema conceitual para relacionar sua ordem sociopolítica a dois
heróis ancestrais, relacionados, em contrapartida, à criação do universo. As narrações
sobre a evolução da tribo a partir de seus heróis ancestrais são representadas na forma
de saga, embora a “história” mais primitiva seja contada em mitos. É notável, porém,
que o único esquema conceitual do sistema social dos lugbara relacione o passado
mítico e o genealógico (não-mítico) e que, em seu conjunto, seja expresso mais em
categorias espaciais do que histórico-temporais.
A China antiga não representa um amplo sistema de mitos e, a esse respeito,
difere marcadamente da China pós-clássica, com vasto número de mitos e deuses. Na
China antiga, são feitas referências literárias a figuras e evoluções que parecem
históricas, mas são, na verdade, historicizações de mitos anteriores, cuja forma mítica
foi abandonada. Muitas dessas referências, especialmente em palavras atribuídas a
Confúcio, abordam a natureza do estado e a qualidade dos governantes.
Mito e arte
Pelo caráter simbólico que reveste, o mito pode ser considerado manifestação
artística e geradora de arte. Em cada povo e civilização, os mitos são fonte de
inspiração para as mais diversas obras de arte, assim como as fantasias e criações
imaginárias dos sonhos e dos estados alterados da consciência (como aqueles
resultantes do efeito de algumas drogas) são também estímulos à atividade artística. Os
monumentos megalíticos, a disposição dos túmulos e a maneira de construir os templos
são a expressão plástica da crença num destino ultraterreno e num vínculo do homem
com a Terra e o universo. A própria arquitetura clássica, ao igualar a estrutura dos
templos e dos palácios da administração civil, não fez mais que plasmar o mito do
homem renascentista – aquele que se converte em centro do universo e acaba por
proclamar deusa a sua própria faculdade racional. Desse modo, as culturas antimíticas
– aquelas que rebaixam o mito a mera literatura – podem terminar por incorrer em
novos mitos.
Uma conexão mais estreita, embora menos definida, pode ser apontada entre
mito e literatura. O mito é originalmente uma narração oral espontânea que se cristaliza
ao longo das gerações. A literatura tende a explicar, a clarificar e desenvolver o mito
que havia nascido de forma fragmentária e, por vezes, pouco coerente. À medida que é
adaptado à esfera e às dimensões da vida humana, manipulado e elaborado
conscientemente pelos indivíduos, o mito se dilui em suas características originais para
tornar-se lenda, saga, epopéia, fábula, história, conto e novela. As sagas nórdicas, por
exemplo, podem ser consideradas mitos menores, em que os povos que os criaram e
difundiram projetaram seus ideais, mas sem aprofundar-se quanto à estrutura e os
significados inefáveis e transcendentes, que se revelam apenas nos mitos.
Mito e razão
Alguns autores reduzem os mitos a narrativas referentes a tempos arcaicos e
elaboradas em épocas pré-críticas, isto é, antes do usos dos métodos racionais de
estudo análise. Entendem que o mito tornou-se, com o tempo, mera literatura, embora
encontrem dificuldades para estabelecer com precisão quando teria cessado a
criatividade mítica. Outros estudiosos, ao contrário, consideram o pensamento mítico
uma constante antropológica, complementar ao pensamento racional (e não um estágio
“menos evoluído” deste). Apontam, para demonstrá-lo, indícios de que o pensamento
mítico está em operação em muitas das manifestações culturais contemporâneas
(como a arte). Em convivência com a reconhecida tendência à secularização, que
“desmitologiza” os símbolos religiosos, morais ou épicos e os equipara a pura “ilusão”,
existiria uma outra, responsável pela produção de novos mitos ou, mais exatamente,
novas formas simbólicas dos temas míticos tradicionais.
O pensamento racional e científico não seria, portanto, um “desmascarador” de
mitos e substituto do pensamento mítico, mas pode ser capaz de reconhecer sua
atualidade. Enquanto a astronomia, com suas descobertas, esvaziou os céus, antes
povoados de deuses, a sociologia e a psicologia descobriram forças que se impõem ao
pensamento e à vontade humana, e portanto, atuam e se manifestam de modo
autônomo.
Se uma das características fundamentais do pensamento mítico é efetivamente a
aceitação acrítica das narrativas e explicações que ele produz, será então
extremamente difícil que uma sociedade reconheça seus próprios mitos como tais, pois
isso significaria considera-los de um ponto de vista crítico, de forma que eles passariam
a ser vistos como mera ficção ou, se aceitos como verdadeiros, tornar-se-iam valores
morais, religiosos ou éticos. Em qualquer caso, existe uma resistência individual e
social a “desmascarar” o mito e a considerá-lo em seu caráter de linguagem simbólica
SolBatt agradece sua visita!